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Saiba o que disse à Polícia Federal suspeito de recolher dinheiro da JBS

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O Jornal Nacional teve acesso ao depoimento de um dos suspeitos de ter sido indicado para recolher, semanalmente, dinheiro prometido pela JBS em troca de favorecimento em uma disputa no Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade).

De acordo com as investigações, feitas a partir da delação da JBS, uma das preocupações do ex-assessor do presidente Michel Temer Rodrigo Rocha Loures era como receber os repasses de R$ 500 mil que a JBS prometia entregar toda semana.

De acordo com as investigações, nas conversas com o executivo da J&F Ricardo Saud, Rocha Loures trabalhava com duas opções de pessoas para receber o dinheiro: um foi chamado de “Edgar”, que a polícia ainda não localizou.

Loures: “Então vamos fazer o seguinte… eu vou verificar com Edgar, se o Edgar… tem duas opções: ou o Edgar ou o teu xará.”

O “xará” de Ricardo Saud citado na conversa é Ricardo Mesquita, executivo da Rodrimar – uma empresa especializada em comércio exterior, que atua no setor de portos, com base em Santos.

Ele já tinha aparecido no café onde o ex-assessor do presidente Temer se reuniu pela primeira vez com o executivo da J&F Ricardo Saud.

Ricardo Saud: “O Rodrigo pegou e falou: ‘Ó, esse é o seu xará, você sabe’. Tô cansado de saber. Nós fomos lá quantas vezes quando nós estávamos fazendo negócio, o Temer sempre ajudou a gente. ‘Tá bom, depois quero te falar sobre ele, tudo bem?’ Tudo bem, falei ‘tchau, tchau, tchau’ e fui embora. A operação acabou aí.”

Naquele segundo encontro dos dois, em 28 de abril deste ano, no dia da entrega da mala, Rocha Loures e Ricardo Saud discutiram como seria feito o pagamento semanal. E o nome de Ricardo Mesquita foi citado de novo.

Rocha Loures: “Eu até pensei… lembra aquele dia que nos encontramos, tomamos um café, que a gente encontrou com seu xará?”

Saud: “O Ricardo.”

Loures: “Essa, esse era um horário…” (inaudível)

Saud: “Com o Ricardo?”

Loures: “Isso, aí ele poderia fazer… (inaudível)”

Saud: “Tranquilo. Aí eu não queria… ver se fazia com ele lá na JBS, talvez na escola, não.”

Saud: “Eu gosto muito dele.”

Loures: (inaudível) “Vocês trabalham juntos? …vocês se encontrarem… uma coisa natural.”

Na quinta-feira passada, Ricardo Mesquita foi interrogado pela Polícia Federal. O Jornal Nacional teve acesso a esse depoimento. O executivo da Rodrimar disse que conhecia Rocha Loures desde 2013 e já tinha feito negócios com Ricardo Saud. A Rodrimar vendeu um terminal portuário à Eldorado Celulose, empresa da J&F.

No depoimento, Ricardo Mesquita disse que nunca foi sondado por Rodrigo Rocha Loures para receber dinheiro em espécie na JBS ou de alguém vinculado à essa empresa.

Disse que “acredita que Ricardo Saud e Rocha Loures ventilaram a participação dele no esquema porque eles se encontraram por acaso no café.”

No entanto, o executivo da Rodrimar confirmou que no dia em que a mala com R$ 500 mil foi entregue a Rocha Loures ele falou por telefone com o ex-assessor do presidente. Esses telefonemas foram gravados pela Polícia Federal.

No primeiro, às 17h23, Rocha Loures pergunta se Ricardo Mesquita estava longe, se poderia encontrá-lo. Segundo as investigações, nesse momento, Rocha Loures estava ao lado de Ricardo Saud, que já estava com a mala. Ele estavam no estacionamento de um shopping.

Rocha Loures: “Aonde você me deixou aqui você acha para chegar quanto tempo?”

Ricardo Mesquita: “Uma meia hora”

Rocha Loures: “Ah, talvez não dê tempo…mas em meia hora você acha que consegue? talvez um pouquinho menos?”

Ricardo Mesquita: “Sim, sim, sim!”

Rocha Loures: “Então, se puder, eu te aguardo aqui.”

Ricardo Mesquita: “Tá legal.”

Trinta e cinco minutos depois, Rocha Loures liga para Ricardo e pergunta de novo por ele.

Rocha Loures: “Mas aonde você está?”

Ricardo Mesquita: “Eu tô aqui já. Em dez minutos eu estou aí. Fica tranquilo.”

Rocha Loures: “Então eu vou. Eu acho que vou fazer o seguinte… você me encontra na… vai direto pra… do lado daí. Tem como ir na pizzaria Camelo? Que é do lado de onde eu vou passar agora? Daí eu vou…”

Ricardo Mesquita: “Sim…sim. Ali é mais fácil ainda…”

Rocha Loures: “Então vá pro… vá, por favor, para a pizzaria Camelo, tá bem?”

Ricardo Mesquita: “Tá bom. Fechado.”

Rocha Loures e Ricardo Saud foram em direção à pizzaria. No entanto, no depoimento, Ricardo Mesquita disse que nessa hora se perdeu, foi parar em outra unidade da mesma pizzaria. Como Rocha Loures estava com pressa, foi embora sem esperá-lo e colocou a mala em um taxi.

O depoimento do taxista, também obtido pela TV Globo, revela que Rocha Loures foi dali para a casa dos pais. Ao chegar lá, Rocha Loures pegou a mala que estava no carro, subiu com ela e depois desceu com outra e mandou que o taxista seguisse para o aeroporto de Congonhas. No caminho, ligou de novo para Ricardo Mesquita e marcou de conversar antes do embarque.

Os investigadores afirmam que o fato de Ricardo Mesquita ter se encontrado com Rocha Loures naquela noite de 28 abril levanta suspeitas. No depoimento, o executivo da Rodrimar disse que eles estavam conversando sobre o marco regulatório do setor portuário. O assunto estava realmente sendo discutido no governo.

Dias depois do encontro em São Paulo, Rocha Loures ligou para Michel Temer para perguntar sobre um decreto que alterava regras para a concessão da exploração de portos.

Rocha Loures: “Tá bom, presidente?”

Michel Temer: “Tudo bem e você, bem?”

Rocha Loures: “Tudo, tudo bem. Não, só para lhe fazer uma consulta. Agora, coisa de umas horas atrás, chegou uma informação, através do senador Wellington, que já teria sido assinado o decreto dos portos, não sei se é verdade ou não.”

Temer: “Não”

Rocha Loures: “Pediu pra eu verificar é”

Temer: “Não, não foi.”

Mais à frente, na conversa, Temer e Rocha Loures falam do artigo que poderia beneficiar a Rodrimar.

Temer: “Aquela coisa dos setenta anos, lá pra todo mundo, parece que está acertado aquilo lá….”

Rocha Loures: “Não. Isso equacionou, isso equacionou. Aí tinha uma interpretação dos ‘pré-93’ que ainda havia dúvida…”

Temer: “Ah, bom. essa daí que eu não sei. Eu não sei como é que ficou, viu?”

Rocha Loures: “É… mas eu vou…”

Temer: “Dá uma olhada com o Gustavo, com o pessoal lá.”

Depois de falar com o presidente, Rocha Loures ligou para Ricardo Mesquita, da Rodrimar. E o informou sobre o andamento da proposta.

Rocha Loures: “Foi o que, foi o que… falei com o presidente e o presidente me deu essa notícia de que ele não assinou nada.”

Ricardo Mesquita: “Tá.”

Rocha Loures: “É que a ideia é fazer um ato na quarta-feira da semana que vem.”

Dias depois, Rocha Loures fala por telefone com Gustavo Rocha, o subchefe para assuntos jurídicos da Casa Civil, conforme orientado pelo presidente. Gustavo alerta que Temer ficaria exposto demais.

Gustavo: “Olha só…. é primeiro para falar aqui… por orientação até do ministro Padilha e por conta de exposição que isso pode trazer para o presidente. Essa pauta, ‘pauta pré-93’ foi fechada aqui que não vai passar, tá?”

Rodrigo Rocha Loures: “Tá bom.”

Gustavo Rocha: “Não…. só pra ficar ciente… porque como vêm pra reunião.”

Rocha Loures: “Claro.”

Gustavo Rocha: “Fica ciente da…. realmente é uma exposição muito grande para o presidente se a gente colocar isso…. já conseguiram coisas demais nesse decreto”

Rocha Loures: “O importante é ouvi-los.”

O texto do decreto 8.049 permitiu que as concessões para exploração de portos sejam prorrogadas por mais 35 anos, até o limite de 70 anos, sem licitação. A rodrimar tem duas concessões em Santos, uma delas foi conseguida depois de 1993. A outra, antes. Portanto, a empresa poderia ser beneficiada parcialmente pelo novo decreto, de acordo com especialistas da área.

No fim de seu depoimento, Ricardo Mesquita fala sobre o decreto, e diz que os interesses das empresas com relação à segunda e maior área que tem no Porto de Santos, conseguida antes de 1993, não foram contemplados pelo texto.

Ricardo Mesquita termina dizendo que tomou conhecimento de que seria editada uma medida provisória ou um projeto de lei que iria tratar dos terminais conseguidos antes de 93.

O assunto estava em discussão pouco antes da Operação Patmos e até agora o governo não publicou um novo texto.

Versões

A defesa do empresário Ricardo Mesquita afirmou que os contatos mantidos com o ex-deputado Rodrigo Rocha Loures foram institucionais e dentro da mais estrita legalidade.

A defesa de Rodrigo Rocha Loures não quis se manifestar.

A JBS declarou que todos os atos cometidos no passado estão documentados na delação premiada e que segue à disposição das autoridades.

A Rodrimar afirmou que acompanhou as discussões sobre o chamado decreto dos portos por meio de entidades setoriais e que as empresas não tiveram todos os seus pleitos contemplados.

A Casa Civil declarou que foi contra o pedido da Rodrimar de que o decreto beneficiasse empresas que já tinham contratos de arrendamento anteriores a 1993.

Fonte:G1