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Rebaixado há 2 anos, Brasil ainda tem 14 empresas com ‘selo de bom pagador’

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O grau de investimento mostra que uma empresa, banco ou governo tem condições de pagar suas dívidas sem atraso. Ou seja, este “selo de bom pagador” indica que o risco de calote é baixo, e isso ajuda os investidores a decidirem se compensa aplicar seu dinheiro em títulos. Quanto pior a nota, mais caro a empresa precisa pagar para conseguir capital no mercado financeiro.

Das cerca de 130 empresas brasileiras avaliadas pela Standard & Poor’s (excluindo o setor financeiro), apenas oito têm o grau de investimento. Das 41 empresas classificadas pela Moody’s, apenas uma, a Ambev, está neste patamar. Na Fitch, 13 têm nota de qualidade, das 150 avaliadas.

Exterior e influência do governo

Dois aspectos protegem estas empresas do rebaixamento, na avaliação do economista-chefe da Austin Rating, Alex Agostini. “Elas não possuem muita proximidade com o governo e suas operações não estão todas concentradas no Brasil, com receita vinda do exterior”.

Com a retração do PIB em 2015 e 2016, muitas empresas brasileiras perderam valor, se endividaram ou acabaram vendendo parte de seus ativos.

Mas as exportadoras e multinacionais se beneficiaram da recuperação econômica no resto do mundo, com mais demanda por matérias-primas e dinheiro voltando a circular na Europa e Estados Unidos.

De olho na saúde financeira das empresas, as agências que cortaram a nota do Brasil avaliam se isto pode significar um potencial de geração de caixa insuficiente para cobrir as despesas e pagar as dívidas, especialmente as empresas com ligação mais forte com o governo brasileiro, observa o sócio-diretor da consultoria Mesa Corporate, Luiz Marcatti.

Bom desempenho também conta

Uma exceção é a fabricante de aeronaves Embraer, que apesar de ter uma participação minoritária do governo na empresa, por meio da BNDESPar, mantém o grau de investimento pela Fitch e S&P. “A companhia tem pouca concorrência e bom desempenho em vendas no exterior, além de ter um nível de governança diferente das estatais”, explica Agostini.

Também a mineradora Vale, que tem pequena participação do governo (4,3% das ações em circulação pertencem à BNDESPar), foi poupada de perder seu selo de qualidade e possui a nota mais alta de todas as empresas brasileiras, BBB+, pela Fitch.

Primeira companhia de controle 100% brasileiro a obter o grau de investimento, em 2005, a exportadora de minério de ferro sofre pouca influência estatal em suas decisões administrativas.

Isso diferencia a Vale de outras empresas que recebem suporte financeiro do governo, lembra Agostini. Empresas controladas pela União tiveram suas notas de crédito imediatamente rebaixadas junto à maior parte dos cortes de rating do Brasil, como foi o caso da Petrobras (mais de 50% da fatia é do governo) e da Eletrobras (com participação estatal de 60%).

Bancos e seguradoras, avaliados por uma metodologia diferente das demais empresas, também sofreram rebaixamentos pelo grau de influência do governo em suas atividades.

Sete caíram e duas subiram em quase 2 anos

O grupo das boas pagadoras ficou menor desde que o Brasil perdeu o selo. Passou de 19 para 14 desde maio de 2016. Neste intervalo, sete companhias caíram para o “grau especulativo” e apenas duas subiram.

Questões internas também contam nesta avaliação de crédito, lembra Agostini. No mesmo setor, empresas com perfil semelhante podem receber avaliações bem diferentes, conforme seu nível de endividamento e condição de caixa.

É o caso do segmento de papel e celulose, em que a segunda maior produtora global da matéria-prima, a Suzano, conquistou o selo de boa pagadora pela Fitch em dezembro de 2017, após reduzir sua dívida e ter forte geração de caixa.

Na direção contrária, a Klabin, maior produtora e exportadora de papel do país, perdeu o grau de investimento nas duas agências em que tinha o selo há cerca de dois anos, a Fitch e S&P.

Enquanto as varejistas sofreram com a crise, a Ambev se beneficiou de ter operações no mundo inteiro e uma boa capacidade de absorver impactos do cenário internacional, apesar de ter alguns desarranjos internos, lembra o economista-chefe da Austin Ratings.

Muitos fundos internacionais só aplicam seu dinheiro em empresas com “grau de investimento” em pelo menos duas agências de risco. Ou seja, diante do alerta e da dúvida, os investidores optam por “não pagar para ver”.

Rebaixamento do Brasil

A primeira agência internacional a tirar o “selo de bom pagador” do Brasil foi a Standard and Poor’s (S&P), em setembro de 2015. Em dezembro de 2015, foi a vez da Fitch, e em fevereiro de 2016, a Moody’s derrubou a nota do país em 2 degraus, a última a derrubar seu grau de investimento.

Como principal motivo para a ação, as agências apontaram a deterioração das contas públicas, o aumento do endividamento público e a preocupação com a retomada do crescimento da economia, já que o país atravessava uma queda no PIB e um déficit fiscal crescente.

O Brasil conquistou o grau de investimento pelas agências internacionais Fitch Ratings e Standard & Poor’s pela primeira vez em 2008. Em 2009, conseguiu a classificação pela Moody’s. Veja o histórico das notas de crédito do Brasil.

Com a perda do selo de bom pagador nas três agências, a perspectiva para uma reconquista do grau de investimento ficou ainda mais distante. Historicamente, países costumam levar cerca de 5 a 10 anos para recuperar o título.

Muitos fundos internacionais só aplicam seu dinheiro em empresas com “grau de investimento” em pelo menos duas agências de risco. Ou seja, o Brasil perdeu automaticamente parte dos recursos aplicados em títulos com regras mais rigorosas.

Por outro lado, aponta Marcatti, a piora do rating brasileiro (maior risco) não reduz necessariamente a atratividade do Brasil como investimento, especialmente em um momento em que o país ficou mais barato para o investidor.

Fonte:G1