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Adolescentes da UASE Ananindeua recebem a Imagem Peregrina

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“Bateu no meu coração a vontade de carregar ela. Lembrei da minha mãe. Ela sofreu muito. Quero uma vida nova, dar orgulho para a minha mãe e ser uma pessoa honesta quando sair daqui”. A declaração, de um jovem que há 11 meses cumpre medida socioeducativa, externou na manhã desta segunda-feira (18) a emoção de quem carregou a Imagem Peregrina de Nossa Senhora de Nazaré pelos corredores da Unidade de Atendimento Socioeducativo de Ananindeua (UASE Ananindeua), vinculada à Fundação de Atendimento Socioeducativo do Pará (Fasepa). Privado de liberdade, para ele esse momento de espiritualidade traz a esperança de uma vida nova.

Natural do interior do Pará, o jovem é um dos 12 adolescentes que participaram da programação, organizada pela Pastoral Carcerária da Arquidiocese de Belém. A visita da Imagem Peregrina integra a programação que antecede o Círio de Nazaré, realizado no segundo domingo de outubro em Belém. Neste ano, a novidade foi a presença do novo bispo auxiliar de Belém, Dom Antônio de Assis Ribeiro. “Vocês têm mais futuro do que passado”, disse o bispo aos adolescentes. O trabalho do religioso com a juventude vai além da Igreja. Dom Antônio trabalhou por dois anos como conselheiro do direito da criança e do adolescente, e conheceu de perto o trabalho nas unidades, na época da extinta Fundação da Criança e do Adolescente no Pará (Funcap), substituída pela Fasepa.

Para Dom Antônio, uma das experiências mais difíceis para o homem de hoje é a paciência, devido à cultura imediatista. “O jovem de hoje tem dificuldade de esperar, tem dificuldade de fazer processo. Na formação de um adulto existe um processo de crescimento. Então, esses jovens que estão aqui vivem essa experiência da impaciência. O crime é consequência da falta de espera de não estudar, não trabalhar, não obedecer, não seguir regras. O que não fizeram lá fora, foi o que a educação não proporcionou a eles, foi o que a família não deu a eles, e agora vão ter que fazer a experiência de aprender a obedecer e esperar”, ressaltou o bispo.

Ele disse ainda que a família está inserida em um contexto social muito complexo de trabalho, pobreza, subsistência, educação, saúde e moradia. “Está faltando nós darmos uma atenção conjunta à família, não só as igrejas, mas a escola, o Estado, as pastorais, as diversas instituições. Se a família não tem essas condições, ela não consegue formar cidadãos, ela fica isolada e, consequentemente, aquele menino que poderia ser um cidadão de bem no futuro, não tendo formação, vai entrar para a criminalidade”, acrescentou o bispo auxiliar de Belém.

Dom Antônio aproveitou para abençoar os dois membros que, a partir de hoje, serão responsáveis pelas visitas aos adolescentes nas unidades da Pastoral Carcerária. Os paroquianos da Igreja Jesus Bom Samaritano, localizada no Bairro do Tapanã, são Orlando Borges e Fábio Pampolha. Este último já tem experiência com a socioeducação, por ter trabalhado por dois anos na Fasepa como técnico de enfermagem. “É fundamental esse trabalho, porque ajuda a recuperar também a dignidade deles, fazer com que se sintam cidadãos cristãos. Nos anos que trabalhei aqui, vi que tem esperança na recuperação deles. Já reencontrei um ex-socioeducando fora daqui fazendo faculdade de Direito. Vejo que esse trabalho ajuda não só o lado espiritual, mas na vida dele como cidadão”, afirmou o ex-servidor.

Garantia de direito – O direito à prática da espiritualidade é um dos eixos prescritos no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e no Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo (Sinase) garantidos pela Fasepa, por meio do Projeto Ressignificando Caminhos na Socioeducação. Desde 2015, a “Ação Vidas”, uma das quatro vertentes do projeto, trabalha atividades que buscam envolver os adolescentes no exercício da espiritualidade e na convivência familiar.

Em busca da qualidade do serviço na garantia de direitos, a gestora da UASE Ananindeua, Sônia Cabeça, frisou a necessidade da dedicação dos servidores que atuam na alta complexidade. “Eu vejo a socioeducação como se fosse uma cidade dentro de outra cidade, e que todos os atores sociais que estão aqui precisam estar lapidando com carinho. É como se fosse um verdadeiro útero, onde os meninos vão se lapidando, como se fossem se preparando para esse novo nascer. Chegar lá fora e nascer de novo para a sociedade, agora com uma boa proposta”, explicou a gestora.

Programação – Além das visitas da Imagem Peregrina às outras unidades socioeducativas na Região Metropolitana de Belém, como ao Centro de Internação Jovem e Adulto Masculino (Cijam) no próximo dia 21 (quinta-feira) e à UASE Benevides, no dia 22, haverá outro grande momento de manifestação religiosa e cultural esperado pela comunidade socioeducativa.

É o 3º Auto do Círio da Socioeducação, que este ano levará socioeducandos de todas as unidades à Rua Cavalcante, em Ananindeua, no dia 5 de outubro, às 09 h. O Auto é um momento cultural resultante das oficinas artísticas de música, dança, teatro e artesanato oferecidas aos adolescentes durante o mês de setembro. (Colaboração de Franklin Salvador).

Por Tiago Furtado
Fonte:Agência Pará